sábado, 3 de julho de 2010

"Veranico de Janeiro", de Bernardo Élis

"Veranico de Janeiro" (contos) - Bernardo Élis Fleury de Campos Curado
Livraria José Olympio Editora. Rio de janeiro, 1976.

No ano de 1987 ganhei de um amigo o livro “Veranico de janeiro”, de Bernardo Élis, publicado pela prodigiosa Livraria José Olympio Editora, edição de 1976. Guardei-o sem ler. Passaram-se vinte e três anos, quando, finalmente, tirei-o da prateleira para degustá-lo saborosamente. O livro é composto de seis contos (“A Enxada”, “Rosa”, “O padre e um sujeitinho metido a rabequista”, “Dona sá Donana” e o "Os foxicos da fontev do taquari”. Em nota da segunda edição, escreveu Herman Lima:

"O livro tira o fôlego, desde as primeiras páginas, tudo nele é força telúrica, imprecação de denúncia, brutalidade da natureza conluiada com o homem, na martirização do homem, na carên cia de alma, naquela fria maldade inelutável do meio—vida e gente. Figuras como a do velho agiota Benedito, no seu cruel prestígio do todo-poderoso mandonismo sertanejo, possesso da ga nância, na cobrança de dívidas a sangue; episódios como a lou cura final do mísero Supriano, esfuroando a terra com os tocos dos dedos, com os ossos do punho a nu, esbrugados em raízes e pedregulhos, depois daquela tão lancinante via-sacra em busca de uma enxada, "uma enxada!" que lhe facultasse o cumprimento da promessa de plantio do arroz do monstro, dão um choque, um espanto novo, embora narrados na mesma parcimônia de linguagem e na total ausência de sensacionalismo por parte do autor. Mas, tudo tem um cunho de irremediável autenticidade, uma ferocidade de exíramuros da civilização, um egoísmo infrangível e total. Há uma pinta hoffmânnica sem dúvida ao gizar daquela sinistra simbiose da mulher paralítica na cacunda do filho mentecapto, cavalgata apocalíptica que marca fundo na gente. Há o mesmo tenebroso afã daquele carreteiro da Morte, de certa maravilhosa novela de Selma Lagerlof, correndo as casas da sua aldeia, durante todo o primeiro ano depois de deixar a vida, na expiação de grandes pecados, quando Bernardo Élis nos mos tra o tropeiro seu patrício, bom samaritano, de porta em porta a pedinchar guarida para o triste "defunto" que não quer morrer, e há, captando a solidariedade integral do leitor, a torva miséria da meretriz, privada do pobre catre dos seus amores mercenários, quando nele se instala o enfermo renitente, e, de par com a fome na casa sem o seu sustento, a mágoa maior de lhe faltar também o vestido novo para a festa do Divino. Aqui a arte do contador culmina, ao entrechoque de tantos desesperos com o contracanto dos festejos religiosos que vem na asa do vento, em back-ground musical, e mete de choça adentro a irresistibilidade daquele con vite de gaitas, zabumbas e coplas de folguedo afro-brasileiro, no seu avassalador sortilégio.
A mulinha empacadora, doutro conto, o do vigário bonachei rão e do vigarista de maus bofes, desde logo identificado pelo bom cura, entra de vez sem favor na família já hoje ilustre doutros quadrúpedes do seu jaez, a mula do papa de Avinhão, de mestre Daudet, à espera dos sete anos para pregar no pajem trapaceiro que a levara às grimpas da torre do palácio o bom par de coices da vindita, aquela ideia que "lui redonnait un peu de coeur au ventre; sans cela n'aurait pás pu se tenir...", como também aquele Mansinho, de João Alphonsus, em cuja cova o pároco não se pode furtar à reza de um responso; ou ainda o burrinho pedrês de Guimarães Rosa, "miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei de onde no sertão." Mas, todas elas, suas criaturas, sem dependência alheia, vivendo por si, na poderosa fixação dos traços de cada uma, em transfiguração artística verdadeiramente excepcional, desde a mais gigantesca, no seu drama, como é o Supriano, tão monstruoso na sua tortura de Quasímodo rústico, até a mais humilde e anódina, ou seja, digamos, aquela Siá Rosa, comendo vento e fedendo a cavalo, sempre na esperança de uma chuva redentora da sua terra.
Nelas nada falseia, o corte vertical ê exato, o vocabulário que as reveste é o próprio, vem com a marca autóctone de uma rapsó dia bárbara da gleba, na sua prodigiosa carga idiomática de la mento fundo ou de áspero libelo” (Rio de Janeiro, outubro de 1965).

O texo a seguir, extraído do conto “A enxada”, sintetiza o drama vivenciado por um sertanista pobre em sua busca desesperada por uma simples enxada, com a qual poderia redimir-se diante de seu ambicioso patrão. A linguagem tipicamente regionalista dá o tom ao conto, enriquecendo-o magistralmente:

“Os dois homens desapareceram e Piano se martirizava recom­pondo na cabeça a cena da cadeia, as pranchadas de refe, os maus-tratos dos soldados. "Num matei, num roubei, num buli com muié dos outros, gente, O que eu quero é uma enxada pra mode lavorar. E num quero de graça não. Agora não posso pagar, mas a safra taí mesmo e eu pago com juro!"

Arrancou-o desse reinar uma topada desgraçada numa pedra cristal. Então é que deu por fé que regressava para o rancho. Quede Seu Joaquim? Quede a casa dele, com Dona Alice, o porco e os meninos? Tudo tinha ficado para trás, lá longe. Trans­posto o córrego, estaria em terras de Seu Elpídio; daí, pegando o atalho por dentro das terras baixas entupidas de tiriricas, ia sair no seu rancho.
O pé sangrava e doía. Piano parou na grota, meteu o pé na água fresca e caçou jeito de estancar o sangue com o barro pe gajoso da margem, com que barreou a ferida. Nesse ponto, sentiu fome. Uma bambeza grande pelo corpo que suava. Veio-lhe tam bém a lembrança de que ali ao lado estava o terreno que Terto descoivarou e que ele deveria plantar. A lembrança aumentou-lhe o mal-estar, trazendo a sensação de que o amarravam, o sujigavam, tapavam-lhe a suspiração, o estavam sufocando.
Num salto, deixou a grota e saiu numa carreira de urubu pelo caminho fundo, sem ao menos querer voltar a vista para o lado do terreno da roça. Muito adiante foi que moderou o galope. Uma canseira forte o dominava; sua respiração saía rascante e dificultosa por causa do papo, aquele papo incómodo que pesava quase uma arroba. Diminuiu o chouto, chupou fôlego e, sentindo a vista turva, se assentou. Passada a zonzura, percebeu que fazia um calor de matar, embora não se visse o sol. Nuvens pesadíssi mas, negras, baixas, toldavam o céu. "Tomara que chova." Com esse veranico. quem é que pode plantar? Embora desprevenido de enxada, se o diabo desse solão continuasse como ia, não so bejaria qualquer esperança de colheita. "Tomara que chova." Chuva muita, dessa chuvinha criadeira, porque no dia seguinte Seu Elpídio a mandar soldado saber se a roca estava plantada. Chuva dia e noite. Não chuva braba. que Santa Bárbara o de fendesse, que essa levaria a terra, encheria o córrego e arrastaria todo o arroz que Piano ia plantar pela encosta arriba, o arroz que crescia bonito, verdinho. verdinho. fazendo ondas ao vento.
Um grande alívio encheu o peito do horaem. sensação de de­safogo, como se houvesse já plantado a roça inteirinha, como se o arrozal subisse verdinho pela encosta, ondeando ao vento. "Será que já plantei o meu arroz? Sim. Plantara. Pois não vira a roça que estava uma beleza?" Agora o que sentia era um desejo da nado de ver o seu arrozal, a roça que já havia plantado e que se estendia pela encosta arriba. Queria ter certeza de que a plan tara. Queria pegar no arroz, tê-lo em suas mãos. Mas o diabo era que o terreno ficava lá para trás, na beira do córrego, e seu corpo não pedia voltar até lá. Estava cansado, cansado, muito cansado mesmo” (p. 47, 48).

É isso!

Nenhum comentário:

Postar um comentário