quinta-feira, 5 de junho de 2014

Projeto Livro Livre

O “Projeto Livro Livre” é uma iniciativa que propõe o compartilhamento, de forma livre e gratuita, de obras literárias já em domínio público ou que tenham a sua divulgação devidamente autorizada, especialmente o livro em seu formato Digital. 

No Brasil, segundo a Lei nº 9.610, no seu artigo 41, os direitos patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subsequente ao de seu falecimento. O mesmo se observa em Portugal. Segundo o Código dos Direitos de Autor e dos Direitos Conexos, em seu capítulo IV e artigo 31º, o direito de autor caduca, na falta de disposição especial, 70 anos após a morte do criador intelectual, mesmo que a obra só tenha sido publicada ou divulgada postumamente. 

O nosso Projeto, que tem por único e exclusivo objetivo colaborar em prol da divulgação do bom conhecimento na Internet, busca assim não violar nenhum direito autoral. Todavia, caso seja encontrado algum livro que, por alguma razão, esteja ferindo os direitos do autor, pedimos a gentileza que nos informe, a fim de que seja devidamente suprimido de nosso acervo. 

Esperamos um dia, quem sabe, que as leis que regem os direitos do autor sejam repensadas e reformuladas, tornando a proteção da propriedade intelectual uma ferramenta para promover o conhecimento, em vez de um temível inibidor ao livre acesso aos bens culturais. Assim esperamos!

Até lá, daremos nossa pequena contribuição para o desenvolvimento da educação e da cultura, mediante o compartilhamento livre e gratuito de obras sob domínio público, como estas que disponibilizamos gratuitamente em formato PDF.


É isso!


Iba Mendes
Iba@ibamendes.com

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Livros em PDF grátis - Só Literatura

Adolfo Caminha - Tentação
Adolfo Caminha - A Normalista
Adolfo Caminha - No País dos Ianques
Adolfo Caminha - O Bom-Crioulo
Afonso Celso - Por que me ufano de meu país
Alexandre Herculano - Eurico o Presbítero
Alexandre Herculano - Lendas e Narrativas
Almachio Diniz - Mundanismos
Almeida Garret - Viagens na Minha Terra
Aluísio Azevedo - A Condessa Vésper
Aluísio Azevedo - Casa de Pensão
Aluísio Azevedo - Filomena Borges
Aluísio Azevedo - Girândola de Amores
Aluísio Azevedo - Livro de uma Sogra
Aluísio Azevedo - Mattos Malta ou Matta?
Aluísio Azevedo - O Cortiço
Aluísio Azevedo - O Coruja
Aluísio Azevedo - O Japão
Aluísio Azevedo - O Mulato
Aluísio Azevedo - Uma Lágrima de Mulher
Aluísio Azevedo -Demônios (conto)
Aluísio Azevedo e Artur Azevedo - Fritzmac
Aluísio de Azevedo - A Mortalha de Alzira
Aluísio de Azevedo - O Homem
Alvares de Azevedo - Macário
Alvares de Azevedo - Noite na Taverna
Alvares de Azevedo - Poesia
Ana de Castro Osório - Quatro Novelas
Antônio Patrício - Serão Inquieto
Artur Azevedo - Contos Completos
Augusto dos Anjos - Eu e Outras Poesias
Bernardo Guimarães - O Seminarista
Bernardo Guimarães - A Escrava Isaura
Bernardo Guimarães - O Ermitão do Muquém
Bernardo Guimarães - O Garimpeiro
Bernardo Guimarães - Poesia Completa
Camilo Castelo Branco - A Queda dum Anjo
Camilo Castelo Branco - A viúva do enforcado
Camilo Castelo Branco - Amor de Perdição
Camilo Castelo Branco - Mistérios de Lisboa
Camilo Castelo Branco - Novelas do Minho
Camilo Castelo Branco - O Judeu
Castro Alves - A Cachoeira de Paulo Afonso
Castro Alves - Espumas Flutuantes
Castro Alves - Os Escravos
Charles Dickens - Oliver Twist
D. João da Câmara - Contos
Delminda Silveira de Sousa - Contos de um Instante
Euclides da Cunha - Correspondência
Euclides da Cunha - Contrastes e Confrontos
Euclides da Cunha - Diário de uma Expedição
Euclides da Cunha - Fragmentos e pequenos textos
Euclides da Cunha - Os Sertões
Euclides da Cunha - Peru versus Bolívia
Euclides da Cunha - Poemas
Euclides da Cunha - Vários Artigos
Euclides da Cunha- Canudos e Outros Temas
Euclides da Cunha- À Margem da História
Eça de Queirós - A Capital
Eça de Queirós - A Catástrofe (Conto)
Eça de Queirós - A Cidade e as Serras
Eça de Queirós - A Ilustre Casa de Ramires
Eça de Queirós - Alves & Cia
Eça de Queirós - Artigos Diversos
Eça de Queirós - Cartas de Inglaterra
Eça de Queirós - Cartas Familiares e Bilhetes de Paris
Eça de Queirós - Contos Completos
Eça de Queirós - Correspondência de Fradique Mendes
Eça de Queirós - Crônicas de Londres
Eça de Queirós - Ecos de Paris
Eça de Queirós - O Conde d'Abranhos
Eça de Queirós - O Crime do Padre Amaro
Eça de Queirós - O Mandarim
Eça de Queirós - O Primo Basílio
Eça de Queirós - Os Maias
Eça de Queirós - Prosas Bárbaras
Eça de Queirós - S. Frei Gil
Eça de Queirós - Santo Onofre
Eça de Queirós - São Cristóvão
Eça de Queirós - Textos Jornalísticos
Eça de Queirós - Uma Campanha Alegre
Fernando Pessoa - Banqueiro Anarquista
Fernando Pessoa - Cancioneiro
Fernando Pessoa - Livro do Desassossego
Fernando Pessoa - Mensagem
Fernando Pessoa - Poemas
Fernando Pessoa - Poemas de Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Poemas de Ricardo Reis
Fernando Pessoa - Poesias Inéditas
Fernando Pessoa - Primeiro Fausto
Fernando Pessoa- Poemas de Álvaro de Campos
Filaho de Almeida - Contos
Florbela Espanca - Contos
Gonçalves Dias - I Juca-Pirama
Gonçalves Dias - Leonor de Mendonça (Teatro)
Gonçalves Dias - Novos Cantos
Gonçalves Dias - Os Timbiras
Gonçalves Dias - Primeiros Cantos
Gonçalves Dias - Segundos Cantos
Gonçalves Dias- Patkull (Teatro)
História Antiga (autor não identificado)
Hugo de Carvalho Ramos - Tropas e Boiadas
Humberto de Campos - O Monstro e outros contos
J. Fernandes Costa - História da Grécia
Joaquim Manuel de Macedo - A Luneta Mágica
Joaquim Manuel de Macedo - A Moreninha
Joaquim Manuel de Macedo - As Mulheres de Mantilha
Joaquim Manuel de Macedo - As Vítimas Algozes
Joaquim Manuel de Macedo - Memórias da Rua do Ouvidor
Joaquim Manuel de Macedo - O Moço Loiro
Joaquim Manuel de Macedo - Os Dois Amores
Joaquim Manuel de Macedo - Teatro Completo
Johann Wolfgang von Goethe - Fausto
José de Alencar - A Alma do Lázaro (Alfarrábios)
José de Alencar - A Pata da Gazela
José de Alencar - A Viuvinha
José de Alencar - Ao Correr da Pena
José de Alencar - As Minas de Prata (Completo)
José de Alencar - Como e por que sou romancista
José de Alencar - Diva
José de Alencar - Encarnação
José de Alencar - Ermitão da Glória
José de Alencar - Iracema
José de Alencar - Lucíola
José de Alencar - O Garatuja
José de Alencar - O Gaúcho
José de Alencar - O Guarani
José de Alencar - o Sertanejo
José de Alencar - O Tronco do Ipê
José de Alencar - Senhora
José de Alencar - Sonhos D'Ouro
José de Alencar - Teatro (Volume II)
José de Alencar - Teatro Completo
José de Alencar - Til
José de Alencar - Ubirajara
João do Rio Dentro da Noite (Contos)
Júlio César Machado - Contos ao Luar
Júlio Diniz - Serões da Província
Júlio Ribeiro - A Carne
Lima Barreto - Clara dos Anjos
Lima Barreto - Aventuras do Dr. Bogoloff
Lima Barreto - Contos Completos
Lima Barreto - Crônicas Completas
Lima Barreto - Diário Íntimo
Lima Barreto - Marginália
Lima Barreto - Numa e a Ninfa
Lima Barreto - O Cemitério dos Vivos
Lima Barreto - O Subterrâneo do Morro do Castelo
Lima Barreto - Os Bruzundangas
Lima Barreto - Recordações do escrivão Isaías Caminha
Lima Barreto - Triste Fim de Policarpo Quaresma
Luís de Camões - Os Lusíadas
Machado de Assis - A Mão e a Luva
Machado de Assis - Casa Velha
Machado de Assis - Contos Completos
Machado de Assis - Crítica Completa
Machado de Assis - Crônicas Completas
Machado de Assis - Dom Casmurro
Machado de Assis - Esaú e Jacó
Machado de Assis - Helena
Machado de Assis - Iaiá Garcia
Machado de Assis - Memorial de Aires
Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis - Poesia Completa
Machado de Assis - Quincas Borba
Machado de Assis - Ressurreição
Machado de Assis - Teatro Completo
Machado de Assis por seus Contemporâneos
Manuel Antônio de Almeida - Memórias de um Sargento de Milícias
Maria Amália Vaz de Carvalho - Contos e Fantasias
Olavo Bilac - Contos para Velhos
Olavo Bilac - Tarde (Poemas)
Olavo Bilac - Alma Inquieta
Olavo Bilac - Panóplias e outros Poemas
Olavo Bilac - Poesias Infantis
Olavo Bilac - Sarças de fogo
Olavo Bilac e Magalhães de Azeredo - Sanatorium
Olavo Bilac e Manuel Bonfim - Através do Brasil
Olavo Bilac e Pardal Mallet - O Esqueleto
Padre Antônio Vieira - Sermões Completos
Visconde de Taunay - A Retirada da Laguna
Visconde de Taunay - Ao Entardecer

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Caiu o Ministério!

Brevíssimos comentários sobre a peça "Caiu o Ministério", de França Junior
Por: Iba Mendes (fevereiro/2012)

Ainda não havia lido França Junior, e muito pouco sabia a seu respeito. Foi sua comédia “Caiu o Ministério!” que despertou em mim o interesse por seu legado literário. A peça é o reflexo irônico da política no Brasil durante a segunda metade do século XIX, sob o regime imperial de D. Pedro II, quando este já apresentava visível sinal de decadência. Mas a peça não trata exclusivamente de política. Também se observa nela, por exemplo, a banalidade dos costumes: DONA BÁRBARA — É moda cá da sua terra. Andam as velhas por aí todas pintadas, frisadas, esticadas e arrebicadas, à espera dos rapazes pelas portas dos armarinhos e das confeitarias. Cruz, credo, Santa Bárbara! Só se benzendo a gente com a mão canhota. Olhe, lá em Minas nunca vi disto e estou com cinqüenta anos! A influência da língua francesa no linguajar da burguesia tupiniquim, em detrimento da prevalência do inglês, é outro aspecto bem realçado na obra, algo que fica muito bem tipificado na personagem Beatriz: BEATRIZ — O corpinho estava come ci, come cá. A saia é que estava ravissant! Era toda bouilloné, com fitas veill’or e inteiramente curta. / O que aqui apreciam é muita fita, muitas cores espantadas... enfim, tout ce qu’il y a de camelote. / Muito bem, muito bem, lá para que digamos não senhor. Diz monsiù, negligè, bordó, e outras que tais. Outro traço destacado na comédia refere-se à influência da Europa, sobretudo da Inglaterra, em privilégios na execução de obras aqui no Brasil. É o caso do capitalista inglês Mr. James, que propõe uma “revolução” no transporte urbano da cidade do Rio de Janeiro, com a criação de um trem cinófero, ou seja, puxado por cachorros:MR. JAMES — Idéia estar aqui completamente nova. Mim quer adota sistema cinófero. Quer dizer que trem sobe puxada por cachorras. Cachorra propriamente no puxa. Roda é oca. Cachorra fica dentro de roda. Ora, cachorra dentro de roda, no pode estar parada. Roda ganha impulsa, quanto mais cachorra mexe, mais o roda caminha! Mim precisa de força de cinqüenta cachorras por trem; mas deve muda cachorra em todas as viagens. / Mas eu aproveita todas as cachorras daqui e faz vir ainda muitas cachorras de Inglaterra. / Oh! senhorr, não tem a menor periga. Se cachorra estar danada, estar ainda melhor, porque faz mais esforça e trem tem mais velocidade. França Junior foi um crítico contumaz da facilidade dos ingleses em obter regalias do governo brasileiro. Isso fica bem explicitado nesta fala de Mr. James: MR. JAMES — Mim quer privilégia para introduzir minha sistema em Brasil, e estabelecer primeira linha em Corcovada, com todas as favores de lei de Brasil para empresa de caminha de ferro.

O “audacioso” projeto de Mr. James, de carros saindo do Cosme Velho para o Corcovado, puxados por cães, transforma-se numa verdadeira batalha política. Havia os que estavam do “lado dos cachorros” e os que se opunham aos bichos. Da mesma forma como ocorre hoje com os nossos políticos, havia compras de votos e promessas de vantagens para quem ficasse ou saísse de ambas facções:
FILOMENA — E o que se lucrou em consultar a Câmara? Em assanhar a oposição, e formar no seio do parlamento dois partidos, o dos cachorros e o dos que se batem, como leões, contra os cachorros.
BRITO — E que partidos!
FILOMENA — E lá se vai o privilégio, falto à palavra que dei ao inglês, e o casamento da menina, víspora!
BRITO — Mas o que queres que faça?
FILOMENA — Que envides todos os esforços para que o projeto passe! Hoje é a última discussão.
BRITO — E o último dia talvez do ministério.
FILOMENA — Quais são os deputados que votam contra?
BRITO — Uma infinidade.
FILOMENA — O Elói é cachorro?
BRITO — Sim, senhora.
FILOMENA — O Azambuja?
BRITO — Cachorro.
FILOMENA — O Pereira da Rocha?
BRITO — Este é de fila.
FILOMENA — O Vicente Coelho?
BRITO — Era cachorro; mas passou anteontem para o outro lado.
FILOMENA — E o Barbosa?
BRITO — Está assim, assim. Talvez passe hoje para cachorro.
FILOMENA — Ah! Que se as mulheres tivessem direitos políticos e pudessem representar o país...
BRITO — O que fazias?
FILOMENA — O privilégio havia de passar, custasse o que custasse. Eu é que devia estar no teu lugar, e tu no meu. És um mingau, não nasceste para a luta.
BRITO — Mas com a breca! Queres que faça questão de gabinete?
FILOMENA — Quero que faças tudo, contanto que o privilégio seja concedido.
BRITO (Resoluto.) — Pois bem; farei questão de gabinete, e assim fico livre mais depressa desta maldita túnica de Nessus.

A “batalha dos cachorros” culmina, enfim, com mais uma queda de Ministério. Pronto! Estava aberto o caminho para os novos aspirantes a ministros e novos jogos de interesses na política tupiniquim.

Simplesmente genial esta comédia de França Junior!

É isso!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

“María de Todos los Demonios”

Brevíssimos apontamentos sobre a obra “Do amor e outros demônios”, de Gabriel García Márquez
Do amor e outros demônio”, como toda obra de Gabriel García Márquez, é o pleno império da sensibilidade e da imaginação. Mas não é só isso. A crítica aos valores que a sociedade convencionou e cristalizou como “padrão” também é outra característica que norteia este e outros romances desse maravilhoso autor colombiano. Sierva María de Todos los Ángeles, a menina “possuída”, muito além de uma figura de ficção, sintetiza o grito daqueles que, no decorrer da história, tornaram-se vítimas da estupidez humana, daqueles que suportaram a brutalidade dos que si diziam defensores de Deus e que deixaram suas marcas de sangue como mácula eterna para a posteridade.

A origem do livro, segundo o próprio Gabriel García Márquez, nasceu de uma reportagem que fizera em 1949, no antigo convento caribenho de Santa Clara, e tem como pano de fundo “a lenda de uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um vestido de noiva, que morreu de raiva causada pela mordida de um cachorro, e que era venerada no Caribe por seus muitos milagres.” A marquesinha de que discorre o autor é Sierva María de Todos los Ángeles, personagem central do romance, filha do marquês de Casalduero.

Sierva Maria de Todos los Ángeles, que cresceu sob o convívio dos escravos e orixás, sucumbiu à desgraça após ter sido mordida por um cachorro cinzento com uma estrela na testa. Vítima da superstição popular e religiosa, a menina padeceu os piores tormentos, tornando-se prisioneira num Convento, onde experimentou a dor e o amor.

Entre muitos temas que podem ser extraídos da obra, a problemática da superstição e da crendice popular merece o devido destaque. O mundo de Sierva Maria de Todos los Ángeles, é o mundo dos demônios, dos anjos, das forças sobrenaturais, dos mistérios, dos complôs espirituais e das guerras entre as potestades do bem e do mal. Isso fica bem realçado, por exemplo, nesta passagem, quando o pai busca auxílio da crendice popular para curar sua filha:

O marquês não se confiou a Deus, mas a tudo o que lhe desse alguma esperança. Na cidade havia outros três médicos formados, seis boticários, onze barbeiros sangradores e um sem-número de curandeiros e mestres em feitiçaria, embora nos últimos cinqüenta anos a Inquisição tivesse condenado mil e trezentos a diferentes penas e queimado sete na fogueira. Um jovem médico de Salamanca abriu a ferida fechada de Sierva María e pôs-lhe umas cataplasmas cáusticas para extrair os humores rançosos. Outro tentou a mesma coisa com sanguessugas nas costas. Um barbeiro sangrador lavou a ferida com a urina dela própria e outro a fez bebê-la. Ao fim de duas semanas ela havia suportado dois banhos de ervas e duas lavagens emolientes por dia, e levaramna à beira da agonia com cozimentos de antimônio natural e outros filtros mortais.A febre cedeu, mas ninguém ousou proclamar que a raiva estivesse conjurada. Sierva Maria sentia-se morrer. A princípio resistia com o orgulho intacto, mas após duas semanas sem nenhum resultado tinha uma úlcera de fogo no tornozelo, a pele escaldada por sinapismos e vesicatórios, e o estômago em carne viva. Passara por tudo: vertigens, convulsões, espasmos, delírios, solturas de ventre e de bexiga, e se retorcia no chão uivando de dor e de fúria. Até os curandeiros mais afoitos a abandonaram à própria sorte, convencidos de que estava louca ou possuída pelos demônios. O marquês já tinha perdido todas as esperanças, quando apareceu Sagunta com a receita de Santo Huberto.Foi o final. Sagunta se desfez de seus lençóis e se besuntou com ungüentos de índios para esfregar seu corpo no da menina nua. Esta resistiu de pés e mãos apesar de sua fraqueza extrema, e Sagunta a submeteu à força. Bernarda ouviu de seu quarto a gritaria demente. Correu para ver o que acontecia e encontrou Sierva María esperneando no chão, e Sagunta em cima dela, envolvida na maré de cobre da cabeleira e ululando a oração de Santo Huberto. Chicoteou ambas com as cordas da rede. Primeiro no chão, as duas encolhidas pela surpresa, e depois perseguindo-as pelos cantos até que lhe faltou fôlego”.

O imaginário religioso exerce força preponderante na vida das personagens, ainda mais por se estar no contexto histórico da Inquisição. A figura do demônio, como aquele que vive a atormentar as vidas dos homens que desobedecem a Deus, é essencial no enredo do romance. O comportamento “estranho” da garota não haveria de ser outra coisa senão a atuação do príncipe das trevas:

- Eu queria agüentar minha desgraça em silêncio - disse o marquês.- Pois muito mal o conseguiste - disse o bispo. - É um segredo público que tua pobre filha rola pelo chão, tomada de convulsões obscenas e ladrando em gíria de idólatras. Não são sintomas inequívocos de uma possessão demoníaca?O marquês estava espantado.- Que quer dizer?- Que entre as numerosas espertezas do demônio é muito freqüente a de assumir a aparência de uma doença imunda para se introduzir num corpo inocente - disse. - E uma vez dentro, não há força humana que o faça sair.
O comportamento de Sierva Maria de Todos los Ángeles, suas febres e delírios, não seria outra coisa senão a possessão maligna em seu corpo:

A abadessa brandiu o crucifixo como uma arma contra Sierva María.- Vade retro - gritou.Os criados recuaram, deixando a menina sozinha em seu espaço, com a vista fixa e em guarda.- Aborto de Satanás - gritou a abadessa. Ficaste invisível para nos confundir.Não conseguiram que dissesse uma palavra. Uma noviça quis levá-la pela mão, mas a abadessa a impediu, apavorada:- Não a toques - gritou. E a seguir, para todos: - Que ninguém a toque.Acabaram por levá-la à força, esperneando e distribuindo no ar dentadas de cachorro, até a última cela do Pavilhão da prisão. No caminho, perceberam que ela estava suja de seus próprios excrementos, e a lavaram a baldes de água no estábulo.
O imaginário religioso povoava as mentes que atribuíam à menina façanhas espetaculares e demoníacas, como voar com asas transparentes:

Daí por diante não aconteceu nada que não fosse atribuído ao malefício de Sierva María. Várias noviças declararam para as atas que ela voava com umas asas transparentes que emitiam um zumbido fantástico. Foram necessários dois dias e um piquete de escravos para encurralar o gado e pastorear as abelhas de volta às colméias, e pôr a casaem ordem. Correram rumores de que os porcos estavam envenenados, de que as águas provocavam visões premonitórias, de que uma das galinhas espantadas saiu voando por cima dos telhados até desaparecer no horizonte do mar. Mas os terrores das clarissas eram contraditórios, pois apesar dos espaventos da abadessa, e do pavor de uma ou outra, a cela de Sierva Mana se transformou no centro da curiosidade de todas. / No convento, ninguém mais pôs em dúvida que Sierva María tivesse poderes suficientes para alterar as leis das migrações. / Sierva María foi esquecida em meio à abrasão da cal viva, aos vapores do alcatrão, ao suplício das marteladas e às blasfêmias tonitruantes das pessoas de todo tipo que invadiram a casa até a clausura. Um andaime caiu com um estrépito colossal, um pedreiro morreu e sete outros operários ficaram feridos. A abadessa atribuiu o desastre aos fados maléficos de Sierva María e aproveitou a nova oportunidade para insistir que a mandassem para outro convento enquanto transcorria o jubileu.

Fazia-se necessário exorcizar o demônio, demolir as potestades das trevas. Para isso, incumbiu-se o Padre Cayetano Delaura:

Cayetano Delaura foi no dia seguinte ao convento de Santa Clara. No hábito de lã crua que vestia apesar do calor, levava o acéter de água benta e um estojo com os óleos acramentais, primeiras armas na guerra contra o demônio.

Todavia, este mesmo padre, que já havia tido um amistoso diálogo com o descrente Abrenuncio, fica surpreendido quando contempla o semblante místico da Sierva Maria, num ambiente aterrorizante:

- Mesmo que não estivesse possuída por nenhum demônio - disse -,esta pobre criança tem aqui o ambiente mais propício para ficar possuída.

E o padre, enfim, apaixona-se por Sierva Maria, caindo, em conseqüência disso, no braço do Santo Ofício, porém, fora poupado da morte em praça pública, cumprindo sua pena num hospital “onde viveu muitos anos em promiscuidade com os doentes, comendo e dormindo com eles no chão e lavando-se em suas águas usadas, mas não conseguiu, como desejava, contrair lepra”.

Sierva Maria de Todos los Ángeles, por sua vez, desamparada por Deus, pelos homens e pelo homem de sua vida, morreu numa cama com os olhos fulgurantes e pele de recém-nascida: “Os fios de cabelo brotavam-lhe como borbulhas no crânio raspado, e era possível vê-los crescer”.

Outra figura que merece destaque no romance é o ateu Abrenuncio. Embora vivendo os tempos da Inquisição, mantinha uma postura crítica diante dos dogmas, colecionando seus “livros proibidos”:

- Não há muita diferença em relação - feitiçarias dos negros - disse. - É pior ainda, Porque os negros não vão além de sacrificar galos, ao passo que o Santo Ofício se compraz em esquartejar inocentes no potro ou assá-los vivos num espetáculo público.

É isso!